Fernando Pellisoli
Sou o Poeta da Loucura da Pós-modernidade
Textos
DESVIO DE CONDUTA



Minha família era humilde – de uma simplicidade comovente. Andávamos (eu e meu irmão) sempre limpinhos e com a roupa toda engomados. Era o capricho da minha avó Matilde e da minha mãe Rosalma. A casa também era simples, mas sempre brilhando e bem arrumada. Meu pai era militar – sempre com a farda alinhada. E orgulhoso de servir a pátria, não se importava que o salário fosse pouco. E que mal dava para o sustento da família. A escola também era singela, e ficava pertinho da nossa casa – nossa casa era modo de dizer, pois vivíamos de aluguel. Mas o mais relevante de tudo, é que nós éramos uma família unida e feliz. E isto nos bastava! O meu irmão não era muito afinado com os estudos. Ao contrário, eu era sempre o primeiro – aluno nota dez! E por isto, meu pai me dava um tratamento especial, afirmando, sempre, que eu seria doutor. A disciplina era o cartão de visitas do meu pai. E sua imposição era efetivada com um respeitável chicote. Antero, assim era o nome do meu pai, era um homem bom, mas não admitia mentiras, desordem e desinteresse pelos estudos. E, portanto, meu irmão era quem mais sofria represálias, pois não tinha gosto em estudar: vivia apanhando, mas não se remediava.
O tempo passou. Contava eu com doze anos de idade. Havia prestado exame de admissão nos três melhores colégios da cidade de Santa Maria (RS). Meu pai escolheu o colégio Manoel Ribas - o mais renomado para eu estudar, pois eu havia passado nos três. E foi só o que ele fez: a matrícula no dignifico colégio foi efetuada. Pois, em seguida, veio a falecer, deixando-me em prantos por três dias consecutivos. A vizinhança tentou me consolar, mas eu estava melancolicamente desolado. Nada, nem ninguém, tinham acesso ao meu desalento: o meu pai era tudo para mim. Era o meu farol a me guiar. Era o meu sonho de vida sem saber da existência da morte. Era o meu estar contente estando descontente. Enfim, sem ele, o meu mundo de menino feliz tornou-se profundamente amargo e obscuro. Eu havia tomado conhecimento da existência da morte, e isto me causou estranha sensação taciturna. E o meu olhar iluminado de criança de doze anos tornou-se gélido e tristonho.
As aulas começavam. Eu já não tinha o mesmo entusiasmo de sempre. Tudo era muito diferente no novo colégio - principalmente as pessoas. Elas não se portavam com naturalidade: nelas, tudo soava falso. E eu comecei a me sentir deslocado e constrangido diante dos meus colegas. Estava convivendo com um colégio burguês. Com alunos exibicionistas, ricos, que costumavam desfilar com os carros dos papais. Que as garotas preferiam em detrimento de pessoas como eu: pobres! E, com isto, o meu rendimento escolar começa a definhar, surgindo as minhas primeiras notas vermelhas.
Não bastasse toda essa diferença de convívio, toda a minha tristeza e saudade do meu pai, veio à acne crônica. Tomou conta do meu rosto e do meu corpo inteiro, causando-me desânimo e clamor. E a influência negativa dos meus colegas passou a interferir no meu caráter – já fragilizado com o sofrimento ingente da nova vida problemática. E, então, resolvi mudar o meu visual, já que estudar e tirar notas exemplares não eram o mais importante para aquela gente. Minha mãe Rosalma ficou com um bom pecúlio e uma pensão razoável. Comprou um apartamento, no centro da cidade, e a nossa vida ficou mais confortável e menos paupérrima. Eu até dizia, para os meus colegas, que o meu pai era doutor. Na verdade é relevante constatar a morte da minha avó Matilde - no mesmo ano da morte do meu pai. Minha mãe Rosalma perdeu o marido e a mãe na mesma época. Foi muito sofrimento para todos os familiares. Mas como a vida continua, eu comecei a deixar o cabelo crescer, a usar enfeites de miçangas e a usar boca de sino pasme de 50 centímetros na calça do uniforme. Rebeldia plena e absoluta numa época de ditadura militar, onde o presidente da República mandava matar os estudantes exaltados: eu era o mais exaltado aluno do colégio Manoel Ribas – vulgarmente conhecido pelo apelido “Maneco”.
A perseguição da direção do Maneco começa numa espécie de terrorismo em minha vida. Eu era retirado da sala de aula, em plena prova, porque não estava devidamente vestido de acordo com as normas. Porque meu cabelo estava comprido demais. Ou pelas pulseiras feitas com miçangas. Tudo era motivo para eu perder as provas e, evidentemente, rodar de ano. A diretoria não se preocupou em analisar o meu currículo da escola anterior, no qual constava que eu fora o primeiro da classe durante os cinco anos do primário. Não importava a minha inteligência, a minha nota dez, o meu amor aos estudos, etc. A situação ficou tão caótica, que eu percebi a má fé: estavam tramando a minha expulsão do renomado colégio. Mas, é óbvio, que eu não permitiria tamanha ofensa, pois sempre fui um excelente aluno. Não vacilei um segundo: comuniquei o meu afastamento do Maneco, e parei de estudar.
Talvez eu estivesse morto se houvesse continuado a estudar numa época tão turbulenta, onde os alunos primorosos (com opinião própria) eram sumariamente executados pela elite da ditadura militar. E não pensem que foram poucos a perderem suas vidas pelo simples fato de terem opinião própria e pensar...
FERNANDO PELLISOLI
Enviado por FERNANDO PELLISOLI em 17/09/2010
Alterado em 18/09/2010
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